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A importância de falar sobre saúde mental após o diagnóstico do câncer

Receber a notícia de que está com câncer pode não ser fácil. Medos e apreensões sobre a doença, dúvidas sobre o tratamento e até mudanças sobre os planos futuros na vida podem ocorrer – um casamento marcado pode ser adiado; uma mudança de carreira postergada. O paciente oncológico, diante dessa série de dúvidas, pode sofrer um impacto emocional após o diagnóstico do câncer. Nesse momento delicado, é importante o apoio de profissionais da saúde, de familiares e amigos.


Só no Brasil, a cada ano, são identificados cerca de 625 mil novos casos de câncer, segundo o INCA (Instituto Nacional do Câncer). Nesse universo de milhares de novos pacientes, a doença irá impactar de uma forma diferente na vida de cada um desses indivíduos.


Essa incidência aumenta a importância de olhar para a saúde mental durante o tratamento do câncer. Por isso, conversamos com a Dra. Maria Teresa Lourenço, especialista em psiquiatria, sobre quais impactos psicológicos o paciente oncológico pode ter e como ele próprio e as pessoas mais próximas podem ajudar nesse momento.


Clínica Kowalski: Quais são os principais medos e dúvidas que podem surgir para o paciente após o diagnóstico de um câncer?


Dra. Maria Teresa Lourenço: Ter a notícia de que está com câncer é sempre um momento difícil. O paciente precisa lidar com vários medos. A palavra câncer traz para a gente o medo da morte e do sofrimento. Surgem pensamentos como: "por que aconteceu comigo?”, “será que é verdade?” ou “será que vou morrer?". Além do medo de sofrer, de ter dores, a apreensão sobre como será o tratamento – e a preocupação em como a família lidará com a notícia.


Tudo isso varia de acordo com a idade e a fase de vida do paciente diagnosticado com câncer. Diferentes reações podem ser observadas em uma pessoa jovem, no idoso, na mãe com filhos pequenos ou em quem é um dos provedores da família, porque em cada fase da vida temos preocupações muito próprias.


O impacto do diagnóstico do câncer pode depender também da vivência de cada paciente. Durante nossa vida, vemos outras pessoas com doenças e como elas lidaram com isso. Um exemplo é o paciente que teve algum familiar ou conhecido com câncer anteriormente e que sofreu. As lembranças desses casos podem trazer ainda mais medos.


Clínica Kowalski: Existem dicas ou formas de lidar com a notícia de um diagnóstico do câncer?


Dra. Maria Teresa Lourenço: Já nas primeiras consultas a gente sempre recomenda que o paciente vá acompanhado. Quando estamos ansiosos, podemos não entender muito bem ou sequer gravar o que falam para nós. Por isso, é importante estar acompanhado, anotar em casa todas as dúvidas e não ter medo de perguntar ao médico. No começo pode ser assustador, mas a partir do momento em que o tratamento tiver início, pode haver uma sensação maior de controle e essa ansiedade diminui.

É importante também manter atividade física e tentar não se afastar das pessoas que gosta – pelo contrário, deixar que elas se aproximem. A decisão de contar ou não contar para os outros sobre o diagnóstico do câncer irá depender de cada um de nós. Existem pessoas que gostam de contar e se sentem melhores, enquanto outras preferem dar um tempo.


Clínica Kowalski: Quais transtornos mentais podem se desenvolver no paciente com câncer? Como é possível lidar com essas questões?


Dra. Maria Teresa Lourenço: No começo do tratamento do câncer, alguns pacientes podem apresentar sintomas de ansiedade, como ficar muito nervoso, tremer, passar noites sem dormir, não conseguir comer, entre outros sintomas. O importante nesses casos é procurar um profissional de saúde mental, como um psicólogo ou um psiquiatra, para que se possa atravessar essa fase com maior conforto. Além da psicoterapia, pode ser necessário o uso de medicações, tudo objetivando o bem-estar do paciente. Tudo será feito para que o paciente se sinta melhor e possa passar pelo tratamento com tranquilidade.

Entre os pacientes oncológicos, cerca de 40% vão precisar do atendimento de um profissional de saúde mental.

Agora se o paciente já realiza um tratamento psiquiátrico, seja por ansiedade, depressão, síndrome do pânico ou outra questão, é importante conversar com o psiquiatra, pois pode ser necessário ajustes nas medicações. Passar pelo tratamento oncológico com a assistência de uma equipe de saúde mental será muito melhor.


Clínica Kowalski: Esses transtornos também podem afetar familiares e pessoas próximas?


Dra. Maria Teresa Lourenço: Familiares, amigos e todas as pessoas com as quais o paciente oncológico se relaciona podem ser afetados, porque elas vão lidar com a notícia de acordo com suas experiências pessoais e com as expectativas que têm no futuro de acordo com a sua relação com o paciente. A já existência de um problema psicológico também pode influenciar nesse impacto. Por isso, os familiares e as pessoas próximas também podem procurar uma ajuda psicológica.


Clínica Kowalski: E como essas pessoas mais próximas podem ajudar o paciente com câncer que lida com essas questões?


Dra. Maria Teresa Lourenço: Para acompanhar quem tem câncer, a gente precisa ser um bom ouvinte. É não ter medo de ouvir que o outro está com medo, está aflito. Não ter aquela história, quando o paciente começa a reclamar, de "tem que parar com isso”, “tem que pensar positivo” ou “você está se entregando". Quem está doente precisa de espaço. Podem existir momentos difíceis no tratamento, como após alguma cirurgia ou sessão de quimioterapia, por exemplo. O doente é quem vai nos dar o caminho. A nossa função é estar lá, ao lado do paciente.


Clínica Kowalski: Qual o interesse dos pacientes oncológicos em discutir questões emocionais? Esse encaminhamento geralmente ocorre por causa do cirurgião/oncologista ou é o paciente que busca mais?


Dra. Maria Teresa Lourenço: Na nossa vivência, geralmente o paciente precisa de um empurrãozinho para vir procurar. Na maioria das vezes, é o cirurgião e o oncologista que encaminha ou até mesmo alguém da família. Esse é um movimento importante, porque nos primeiros três meses após o diagnóstico é o período de maior risco para o paciente, inclusive, pensar em suicídio, por ser um momento de maior vulnerabilidade.

Alguns pacientes podem ter um pouco de resistência. Às vezes falam "só me faltava essa: além de tratar o câncer acham que estou louco e preciso ir ao psiquiatra". Não é nada disso, mas ainda há um certo preconceito. Mas hoje em dia, com os serviços de saúde mental dentro dos hospitais oncológicos e com o avanço de tecnologias, o paciente pode procurar até mesmo ajuda on-line de especialistas.

Estudos mostram que o período que o paciente está mais aberto a uma intervenção do ponto de vista psicológico são os primeiros três meses após o diagnóstico. Essa é uma janela para atender o paciente que a gente não pode perder.


Clínica Kowalski: Se, por exemplo, um paciente oncológico não tem sintomas físicos aparente do seu tratamento ou da doença, ele pode ter medo de algum estigma em relação a ser visto como alguém com câncer?


Dra. Maria Teresa Lourenço: Tem muitos pacientes com esse medo, principalmente em relação ao mercado de trabalho. Eles não querem ser tratados como, já me disseram, "café com leite". Alguns temem não terem mais oportunidades no trabalho, porque foram diagnosticados com câncer, mas isso está mudando nas empresas, e o que vemos hoje em dia é um movimento de apoio aos pacientes em muitas empresas. Há também muitos pacientes que se preocupam com seus relacionamentos sociais, temem que eles possam ser prejudicados devido à doença.


São várias as situações que esse estigma pode trazer preocupações. Por isso, é cada vez maior a responsabilidade de falarmos sobre isso, porque o número de casos de câncer deve aumentar, com o aumento da expectativa de vida das pessoas e com o avanço de novos e melhores tratamentos que permitem lidar com a doença. Inclusive, é por isso que a gente se trata: para ir para a vida. A gente não se trata do câncer para viver em função da doença. O paciente irá se tratar, mas para viver na sua totalidade, com qualidade de vida, e não com medo.


Fonte:

Dra. Maria Teresa Duarte Pereira da Cruz Lourenço - CRM 48076

Especialista em Psiquiatria - RQE nº 23554

Especialista em Análise Existencial Frankliana e Logoterapia pela SOBRAL