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Episódio 2 - Como definir o melhor tipo de tratamento para o câncer de cabeça e pescoço?

  • há 17 horas
  • 3 min de leitura

Para planejar o tratamento de um câncer de cabeça e pescoço, além de avaliar o tumor e a saúde do paciente, é preciso considerar o local onde surgiu. A região é um dos fatores que definem como a doença se comporta, como invade tecidos e o risco de se espalhar.


Dr. Luiz Paulo Kowalski

Diferentes localizações pedem diferentes estratégia, já que cada área tem riscos específicos de sequelas. Um tratamento que funciona super bem na boca, trazendo cura rápida, pode causar danos na laringe. Por isso, a escolha precisa equilibrar a eliminação do tumor com a preservação de funções vitais (como fala e mastigação), dependendo se a doença afeta a língua, as cordas vocais ou as glândulas salivares.

 

Esses temas estão nessa segunda entrevista da série com o Prof. Dr. Luiz Paulo Kowalski sobre o tratamento do câncer de cabeça e pescoço. Confira

 


Existe diferença importante entre tratar um câncer de laringe, de boca ou de glândulas salivares, por exemplo?


Dr. Luiz Paulo Kowalski - Sim, e essa é justamente uma das razões pelas quais o câncer de cabeça e pescoço não deve ser tratado como uma doença única. Tumores de localizações diferentes têm comportamento biológico distinto: invadem os tecidos vizinhos de maneiras diferentes, apresentam riscos diversos de disseminação para os linfonodos do pescoço e para órgãos a distância, respondem de forma desigual à radioterapia e aos medicamentos, e deixam sequelas de natureza muito particular a cada região.

 

Essas diferenças mudam totalmente a estratégia de tratamento escolhida?


Dr. Luiz Paulo Kowalski - Com certeza, e alguns exemplos tornam isso concreto. Em um tumor inicial de língua, cirurgia e radioterapia oferecem chances de cura equivalentes. No entanto, a cirurgia costuma ser um procedimento rápido, com poucas sequelas e recuperação em poucos dias, enquanto a radioterapia se estende por várias semanas e pode deixar consequências permanentes, como a boca seca por lesão das glândulas salivares. Por isso, nessa situação, a cirurgia costuma ser a escolha preferencial.


Já em um tumor inicial restrito às cordas vocais, as taxas de controle também são praticamente idênticas entre as duas modalidades, porém o resultado funcional se inverte: a qualidade da voz nos pacientes tratados com radioterapia tende a ser melhor do que a obtida após a ressecção cirúrgica, o que faz pender a balança para o outro lado. Os tumores de glândulas salivares, por sua vez, são pouco sensíveis à radioterapia, e por isso o tratamento inicial de escolha é sempre cirúrgico, reservando-se a irradiação para complementar o tratamento em situações específicas. Cada caso exigirá, portanto, uma abordagem própria.

 

Como funciona o trabalho em equipe na decisão do tratamento? O senhor decide sozinho ou existe uma discussão com outros especialistas?


Dr. Luiz Paulo Kowalski - Um especialista experiente é capaz de oferecer a orientação inicial com bastante precisão, e há situações clínicas em que a conduta está tão bem estabelecida na literatura que a decisão é praticamente automática. Um tumor inicial em determinada localização, por exemplo, tem tratamento padronizado e consagrado. Em muitas outras situações, porém, mesmo o cirurgião mais experiente precisa e deve solicitar a opinião de colegas de outras especialidades, notadamente do radio-oncologista e do oncologista clínico, para que ao paciente seja oferecida a melhor alternativa possível, e não apenas aquela que o profissional domina.

 

Como acontece essa discussão no dia a dia? Ela se restringe ao tumor board ou ocorre de outras formas?


Dr. Luiz Paulo Kowalski - Em ambientes hospitalares mais estruturados, e nos cancer centers de modo particular, essa articulação não depende de iniciativa individual: ela já está previamente organizada na forma dos tumor boards. São reuniões periódicas que congregam especialistas médicos e profissionais não médicos, como dentista, nutricionista, fonoaudiólogo, enfermeiro e psicólogo. Nessas reuniões, o caso é apresentado em detalhes, as imagens e as lâminas da biópsia são revisadas coletivamente, e a decisão é tomada por consenso.


Paralelamente ao fórum formal, existe uma dimensão menos visível, mas igualmente valiosa: a troca de ideias cotidiana entre colegas, no corredor, no centro cirúrgico ou por telefone, que muitas vezes antecipa uma dúvida ou refina uma conduta antes mesmo da reunião oficial.



O Prof. Dr. Luiz Paulo Kowalski é cirurgião oncológico especializado em câncer de cabeça e pescoço, com mais de 40 anos dedicados a essa área. É líder do Centro de Referência em Tumores de Cabeça e Pescoço do A.C.Camargo Cancer Center, pesquisador com centenas de artigos publicados nas mais renomadas revistas científicas e professor livre-docente em Oncologia e professor titular da cadeira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.


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