Estudo afirma que medicamentos da classe da semaglutida não apresentam risco aumentado de câncer de tireoide
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O uso de medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, que inclui fármacos amplamente prescritos como a semaglutida, não esteve associado a um aumento do risco de câncer de tireoide em um acompanhamento de cinco anos quando comparado com o uso de metformina

Essa é a conclusão do estudo “Thyroid Cancer Risk in Patients With Type 2 Diabetes Taking Glucagon-Like Peptide 1 Receptor Agonists”, publicado na revista científica OTO Open. A pesquisa analisou dados de 7.736 pacientes com diabetes tipo 2 e comparou a incidência de câncer de tireoide entre usuários de GLP-1RA e pacientes em tratamento com outras classes de antidiabéticos.
O estudo tem desenho de coorte retrospectiva e utilizou a base de dados internacional TriNetX, que reúne registros eletrônicos de saúde de mais de 100 milhões de pacientes. Foram incluídos adultos com diabetes tipo 2 atendidos entre 2017 e 2019, todos com pelo menos cinco anos de seguimento clínico. Os pesquisadores compararam usuários de agonistas do receptor de GLP-1 com pacientes tratados com metformina, inibidores de SGLT-2 e inibidores de DPP-4, após pareamento estatístico por idade, sexo, comorbidades e outros fatores de risco.
Na comparação com os inibidores de SGLT-2, a taxa de câncer de tireoide em cinco anos foi de 0,30% entre usuários de GLP-1RA, contra 0,48% no grupo controle. Em relação à metformina, as taxas foram de 0,25% e 0,39%, respectivamente. Já na comparação com os inibidores de DPP-4, a incidência foi praticamente equivalente: 0,33% entre usuários de GLP-1RA e 0,37% entre os comparadores. Em nenhuma das análises a diferença foi estatisticamente significativa, indicando ausência de aumento do risco associado ao uso da classe.
Os autores destacam que o interesse em avaliar a segurança oncológica desses medicamentos se intensificou nos últimos anos, à medida que os agonistas do receptor de GLP-1 passaram a ser amplamente utilizados não apenas no controle do diabetes tipo 2, mas também no tratamento da obesidade e na redução de risco cardiovascular. Estudos experimentais em animais haviam levantado a hipótese de uma possível associação com alterações nas células C da tireoide, o que motivou investigações clínicas mais robustas em humanos.
Para o cirurgião de cabeça e pescoço Luiz Paulo Kowalski, os dados ajudam a colocar o debate em perspectiva. “Quando falamos de medicamentos que passam a ser usados por milhões de pessoas é natural que surjam preocupações sobre efeitos adversos de longo prazo, inclusive câncer. O que esse estudo mostra é que, até o momento, não há evidência clínica de aumento do risco de câncer de tireoide associado aos agonistas de GLP-1”, afirma.
Ainda segundo Kowalski, é importante diferenciar achados experimentais de evidências clínicas consolidadas. “Resultados observados em modelos animais nem sempre se reproduzem em humanos. Estudos populacionais bem conduzidos, com grupos comparadores e acompanhamento adequado, são fundamentais para orientar decisões médicas e tranquilizar pacientes”, explica.
Os pesquisadores também ressaltam que as conclusões se limitam ao período analisado. A maioria dos medicamentos dessa classe foi aprovada apenas na última década, o que restringe a avaliação de efeitos muito tardios. Além disso, a base de dados utilizada não permite identificar subtipos histológicos do câncer de tireoide, como o carcinoma medular, que historicamente concentra maior atenção em relação a essa classe de fármacos.
Ainda assim, na avaliação de Kowalski, os resultados reforçam uma mensagem importante para a prática clínica. “Não se pode tomar decisões baseadas apenas no medo. A prescrição deve considerar o balanço entre benefícios comprovados e riscos reais. Hoje, os dados disponíveis indicam que os agonistas do receptor de GLP-1 oferecem benefícios metabólicos relevantes sem evidência de aumento do risco de câncer de tireoide”, diz.
Os autores apontam também que estudos de seguimento mais prolongado ainda são necessários, especialmente diante da expansão do uso desses medicamentos em populações sem diabetes. Até lá, os achados atuais contribuem para sustentar a segurança oncológica da classe no médio prazo e oferecem subsídios importantes para médicos e pacientes em um cenário de uso crescente desses fármacos.
Referência bibliográfica
Sciscent BY, Eberly HW, Lorenz FJ, Goldrich D, Goyal N, Goldenberg D. Thyroid Cancer Risk in Patients With Type 2 Diabetes Taking Glucagon-Like Peptide 1 Receptor Agonists. OTO Open. 2026 Jan 8;10(1):e70188.
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