Diretrizes em câncer de tireoide mostram que individualizar tratamento melhora resposta, reduz tratamento excessivo e otimiza indicação de vigilância ativa
- daniellezanandre
- 5 de jan.
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O manejo do câncer de tireoide diferenciado passa por uma mudança efetiva de paradigma, com foco crescente em tratamento individualizado, melhor avaliação de resposta, redução do excesso de tratamento e ampliação da vigilância ativa em casos selecionados.

Essa é a principal mensagem do documento de consenso “2025 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Differentiated Thyroid Cancer”, publicado na revista científica Thyroid, que reúne evidências atualizadas para orientar decisões clínicas ao longo de toda a jornada do paciente, do diagnóstico ao seguimento de longo prazo.
As novas diretrizes reforçam que não são todos os tumores que exigem abordagens agressivas desde o início. Em um cenário marcado pelo aumento do diagnóstico de tumores pequenos e de baixo risco, o documento propõe uma avaliação mais refinada do risco individual, considerando características clínicas, patológicas, moleculares e a resposta ao tratamento inicial. A proposta é alinhar intensidade terapêutica ao real risco de progressão, evitando intervenções desnecessárias sem comprometer os desfechos oncológicos.
Um dos pontos centrais do consenso é a consolidação da vigilância ativa como estratégia segura para um subgrupo bem definido de pacientes com tumores intratireoidianos de baixo risco. Estudos analisados pelas diretrizes mostram que muitos desses tumores apresentam crescimento mínimo ou inexistente ao longo dos anos, com baixíssimas taxas de progressão clínica, o que sustenta a possibilidade de acompanhamento estruturado em vez de cirurgia imediata.
O cirurgião de cabeça e pescoço Luiz Paulo Kowalski, ao analisar o estudo, observa que a diretriz reflete uma maturidade maior da especialidade. “O documento evidencia que tratar melhor não significa tratar mais, mas tratar de forma mais precisa, ajustando a intensidade da intervenção ao risco real do paciente”, analisa. Segundo ele, a vigilância ativa “não é omissão de tratamento, mas sim uma estratégia ativa, baseada em evidências sólidas e acompanhamento rigoroso”.
Outro eixo relevante das diretrizes é a ênfase na avaliação da resposta ao tratamento como ferramenta dinâmica para guiar decisões futuras. Ao invés de protocolos rígidos, o consenso propõe reavaliar continuamente o paciente após cirurgia, radioiodoterapia ou mesmo durante a vigilância ativa, ajustando o seguimento e a necessidade de novas intervenções conforme a resposta clínica, bioquímica e estrutural.
Essa abordagem tem impacto direto na redução do excesso de tratamento, especialmente no uso indiscriminado de radioiodo e em cirurgias extensas em pacientes de baixo risco. As diretrizes apontam que muitos pacientes alcançam excelente resposta apenas com cirurgia limitada, sem necessidade de terapias adicionais, mantendo taxas de sobrevida superiores a 90% em longo prazo.
“Durante décadas, o câncer de tireoide foi tratado de forma quase padronizada, independentemente do risco individual. O consenso da ATA mostra que hoje temos dados suficientes para diferenciar quem realmente se beneficia de tratamentos mais intensos e quem pode ser tratado com tireoidectomias parciais e até mesmo quem pode acompanhado com segurança”, afirma Kowalski.
O documento também destaca a importância da decisão compartilhada, incorporando preferências do paciente, contexto clínico e possíveis efeitos colaterais no planejamento terapêutico. Essa perspectiva é particularmente relevante em tumores de excelente prognóstico, nos quais a expectativa de vida é longa e os efeitos adversos do tratamento podem ter peso significativo no cotidiano do paciente.
Na avaliação de Kowalski, o impacto das novas diretrizes na prática clínica tende a ser amplo. “Essas recomendações fortalecem uma oncologia mais racional, centrada no paciente e baseada em evidência, com potencial real de transformar a prática diária, inclusive no Brasil”, conclui.
Referência bibliográfica
Ringel MD, Sosa JA, Baloch Z, Bischoff L, Bloom G, Brent GA, Brock PL, Chou R, Flavell RR, Goldner W, Grubbs EG, Haymart M, Larson SM, Leung AM, Osborne J, Ridge JA, Robinson B, Steward DL, Tufano RP, Wirth LJ. 2025 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid. 2025 Aug;35(8):841-985.
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