Seis em cada dez pacientes de câncer de cabeça e pescoço voltam ao trabalho, mas índice é variável
- daniellezanandre
- há 7 dias
- 3 min de leitura
O retorno ao trabalho após o tratamento do câncer de cabeça e pescoço é possível para a maioria dos pacientes, mas varia de forma expressiva conforme o estágio da doença e o tipo de tratamento realizado.

Essa é a principal conclusão do estudo “Return to work and its determinants among head and neck cancer survivors: a cross-sectional study”, publicado na revista científica Medicina Oral, Patología Oral y Cirugía Bucal. A pesquisa brasileira, que avaliou 215 sobreviventes da doença, mostra que 63,7% conseguiram retomar a atividade profissional, percentual que chega a 83,6% entre pacientes com tumores iniciais (T1) e cai para apenas 27,5% nos casos de tumores avançados (T3).
Os autores analisaram pacientes atendidos em dois centros de referência no Brasil e investigou fatores clínicos, funcionais, ocupacionais e socioeconômicos associados ao retorno ao trabalho após o tratamento oncológico. Todos os participantes haviam concluído o tratamento há pelo menos seis meses e estavam em acompanhamento, sem evidência de recidiva da doença. O retorno ao trabalho foi adotado como um marcador central de reabilitação funcional e social.
Os resultados mostram que o estadiamento tumoral exerce influência direta na reinserção profissional. Enquanto mais de 75% dos pacientes com tumores T1 e T2 conseguiram voltar às suas atividades, menos da metade daqueles diagnosticados em estágio T4 retomaram ao trabalho. A presença de metástases também foi determinante: 65% dos pacientes sem metástases à distância retornaram ao trabalho, enquanto nenhum dos pacientes com metástase distante conseguiu se reintegrar profissionalmente.
O tipo de tratamento teve impacto igualmente relevante. Pacientes que não receberam radioterapia apresentaram taxa de retorno de 87,5%, número significativamente superior ao observado entre aqueles submetidos à radioterapia ou quimioterapia. A realização de traqueostomia foi uma das principais barreiras identificadas, com apenas 12,5% desses pacientes conseguindo voltar ao trabalho, em comparação com 65,7% entre aqueles que não precisaram do procedimento. O tempo total de tratamento também influenciou os resultados: 67,5% dos pacientes que concluíram o tratamento em até seis meses retornaram ao trabalho, contra 28,6% entre os que tiveram tratamentos mais prolongados.
O cirurgião de cabeça e pescoço Luiz Paulo Kowalski, um dos autores do estudo, explica que os dados reforçam que a avaliação do sucesso do tratamento deve ir além da sobrevida. “O retorno ao trabalho é um indicador muito concreto de reabilitação, porque reflete preservação funcional, autonomia e reintegração social”, afirma. Segundo ele, os resultados reforçam que o “quanto mais avançada a doença e mais intensivo é o tratamento, maior tende a ser o impacto sobre a capacidade de o paciente retomar sua vida profissional”.
As limitações físicas e funcionais foram apontadas como o principal motivo para não retornar ao trabalho em mais de 80% dos casos. Alterações na fala, na deglutição, na respiração, na mobilidade e no paladar tiveram impacto direto sobre a capacidade laboral. Pacientes com restrição de mobilidade, por exemplo, apresentaram taxa de retorno inferior a 16%, enquanto aqueles sem essa limitação ultrapassaram 68%. Dificuldades respiratórias reduziram a reintegração para cerca de 30%, e alterações importantes na deglutição e no paladar também estiveram associadas a quedas expressivas no retorno ao trabalho.
“Essas sequelas não são apenas sintomas clínicos; elas interferem diretamente na possibilidade de exercer uma profissão, especialmente em atividades que exigem esforço físico ou comunicação constante”, explica Kowalski. Para ele, os achados evidenciam a necessidade de incorporar de forma mais estruturada a reabilitação funcional no cuidado desses pacientes.
O estudo também revelou desigualdades associadas ao tipo de ocupação e ao nível socioeconômico. Trabalhadores em funções administrativas ou intelectuais apresentaram taxa de retorno de 75%, enquanto entre trabalhadores braçais esse índice foi de 57%. Pacientes com maior escolaridade e renda tiveram mais chances de voltar ao trabalho. Entre os que não conseguiram se reintegrar profissionalmente, 18,1% se aposentaram por incapacidade e outros 18,1% permaneceram desempregados após o término do tratamento.
Outro dado relevante foi a relação entre retorno ao trabalho e qualidade de vida. Os pacientes que voltaram a trabalhar apresentaram melhores escores de qualidade de vida, mas também níveis mais elevados de ansiedade, possivelmente relacionados às exigências e inseguranças do processo de reintegração. Ainda assim, esses pacientes mostraram menos sintomas depressivos do que aqueles que não retornaram às atividades profissionais.
Ainda de acordo com Kowalski, os resultados reforçam a necessidade de uma abordagem mais ampla no cuidado aos sobreviventes. “Não basta tratar o tumor. É fundamental pensar desde o início em estratégias que reduzam sequelas, promovam reabilitação e considerem o contexto social e profissional do paciente”, afirma. Ele destaca também que políticas públicas, programas de reabilitação e adaptações no ambiente de trabalho são essenciais para ampliar as chances de reintegração.
Referência bibliográfica
Correia-Neto IJ, Souza LL, Santos LB, Pereira JV, Vartanian JG, Kowalski LP, Vargas PA, Santos-Silva AR, Alves FD, Lopes MA. Return to work and its determinants among head and neck cancer survivors: a cross-sectional study. Med Oral Patol Oral Cir Bucal. 2025 Oct 14:27525.
Disponível em:





