Estudo aponta avanços da inteligência artificial no câncer de cabeça e pescoço, mas lista limitações
- daniellezanandre
- 16 de set. de 2025
- 4 min de leitura
A inteligência artificial (IA) avança com sua capacidade de analisar grandes volumes de dados e oferecer suporte em diagnósticos e planos de tratamento, com uso crescente na Oncologia. No entanto, quando o assunto é câncer de cabeça e pescoço, especialistas alertam que a tecnologia ainda enfrenta barreiras que não podem ser ignoradas

É o que aponta o estudo The Limitations of Artificial Intelligence in Head and Neck Oncology, publicado na revista Advances in Therapy, do grupo Nature, em abril de 2025.
O trabalho reúne 19 instituições da Alemanha, Bélgica, Brasil, Canadá, Colômbia, Espanha, Estados Unidos, Holanda, Índia, Israel, Itália e Polônia, grupo que participa do International Head and Neck Scientific Group.
Os autores analisaram de forma crítica os limites atuais da IA nessa área e publicaram o artigo em uma formato que não é um ensaio clínico ou uma revisão sistemática tradicional, mas sim como um comentário científico construído por consenso entre especialistas em oncologia de cabeça e pescoço, cirurgia, radioterapia, biologia tumoral e ética médica. O objetivo foi mapear sete grandes frentes de limitação da IA nesse campo, reunindo experiências de diferentes países e apontando direções para a prática clínica.
Entre os problemas identificados pelos autores, a falta de transparência aparece como uma das maiores barreiras. “Muitos algoritmos funcionam como verdadeiras “caixas-pretas”, sem explicar como chegam às conclusões, o que gera desconfiança entre médicos e dificulta a integração nas rotinas clínicas”, observa o cirurgião oncológico Dr. Luiz Paulo Kowalski, um dos autores do estudo.
Outro desafio é o risco de vieses nos dados. A análise mostra que as bases usadas para treinar os sistemas costumam privilegiar pacientes de países desenvolvidos e, em sua maioria, homens, o que compromete a aplicabilidade dos modelos em populações diversas. Além disso, há a preocupação com a dependência excessiva da tecnologia, que pode levar à erosão da expertise médica caso a IA seja usada como substituta do julgamento clínico.
As limitações também se estendem à qualidade dos dados. Os autores alertam para a ausência de padrões uniformes em imagens, anotações clínicas e protocolos, o que dificulta, segundo eles, a criação de algoritmos robustos e confiáveis e impacta diretamente a generalização dos modelos em diferentes contextos de saúde. Soma-se a esse cenário o alto custo de implementação. Atualmente, apenas centros bem financiados conseguem desenvolver e manter sistemas de IA, o que amplia desigualdades em saúde entre países e instituições.
Os pesquisadores destacam ainda as questões éticas e legais. A falta de objetividade sobre quem deve ser responsabilizado em caso de erro (o médico, a instituição ou o desenvolvedor) gera insegurança. Também preocupam as restrições ligadas à privacidade de dados, à regulação internacional e ao risco de ataques cibernéticos que possam comprometer informações sensíveis de pacientes. Além disso, a própria biologia do câncer de cabeça e pescoço representa um desafio. A heterogeneidade genética, molecular e clínica da doença ainda não é plenamente compreendida, o que limita a precisão dos algoritmos para prever desfechos e indicar terapias ideais”, reforça Kowalski.
Há também avanços e possíveis caminhos da inteligência artificial no câncer de cabeça e pescoço
Apesar dessas barreiras, o estudo ressalta que a IA já se mostra capaz de contribuir em etapas importantes do cuidado, como a detecção precoce de tumores, o planejamento de radioterapia, a previsão de sobrevida e o acompanhamento personalizado de pacientes. Em alguns cenários, estudos citados no artigo relatam taxas de acurácia próximas a 90% na detecção de lesões em exames de imagem, desempenho superior ao de equipes humanas isoladas. Ainda assim, um modelo treinado com dados de pacientes europeus pode falhar em prever desfechos de pacientes latino-americanos, dada a diferença epidemiológica e socioeconômica, o que compromete diagnósticos e tratamentos.
Para superar esses desafios, os especialistas defendem a adoção de algoritmos explicáveis, que forneçam justificativas compreensíveis para suas decisões, além da inclusão de conteúdos sobre inteligência artificial na formação médica, de modo a aumentar a compreensão e reduzir o ceticismo. Também ressaltam a importância de investir em bases de dados mais diversas e em colaborações multicêntricas, especialmente envolvendo países de baixa e média renda. Outro ponto fundamental é a validação externa obrigatória: algoritmos não podem ser testados apenas em seus próprios contextos de desenvolvimento, mas precisam ser avaliados em populações distintas para garantir sua robustez. Por fim, os autores pedem marcos regulatórios globais que estabeleçam regras claras sobre responsabilidade, privacidade e segurança digital.
Apesar das limitações, o grupo reconhece o potencial transformador da IA. O artigo reforça que, usada de forma responsável e transparente, a tecnologia pode ampliar o acesso a diagnósticos mais rápidos, melhorar a personalização de terapias e apoiar decisões em casos complexos. “Há um entusiasmo legítimo com a IA na oncologia, mas é fundamental não perder de vista os riscos de vieses, erros e desigualdades. Só com regulação, colaboração internacional e investimento em pesquisa biológica será possível garantir benefícios reais para todos os pacientes”, conclui Kowalski.
Referência do estudo
Rao KN, Fernandez-Alvarez V, Guntinas-Lichius O, Sreeram MP, de Bree R, Kowalski LP, Forastiere A, Pace-Asciak P, Rodrigo JP, Saba NF, Ronen O, Florek E, Randolph GW, Sanabria A, Vermorken JB, Hanna EY, Ferlito A. The Limitations of Artificial Intelligence in Head and Neck Oncology. Adv Ther. 2025 Jun;42(6):2559-2568. doi: 10.1007/s12325-025-03198-4. Epub 2025 Apr 29.





