Câncer de cabeça e pescoço:ancestralidade genética influencia biologia tumoral e sobrevida
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Revisão publicada na Cancer and Metastasis Reviews, do Grupo Springer, mostra que a ancestralidade genética, e não a raça autodeclarada, é fator determinante nas características moleculares e no prognóstico do câncer de cabeça e pescoço

O câncer de cabeça e pescoço apresenta disparidades de sobrevida bem documentadas entre diferentes grupos populacionais. Historicamente, essas diferenças têm sido atribuídas principalmente a fatores externos, como tabagismo, consumo de álcool, infecção pelo HPV e barreiras de acesso ao diagnóstico precoce e a tratamento adequado. Esses fatores de risco continuam valendo, mas uma revisão recente traz um aspecto importante a essa discussão: a biologia do próprio tumor pode variar conforme a ancestralidade genética do paciente.
O estudo, intitulado "The Impact of Genomic Ancestry on Tumor Genomics in Head and Neck Squamous Cell Carcinoma", foi realizado por pesquisadores do Institute for Genome Sciences e do Greenebaum Comprehensive Cancer Center, da University of Maryland School of Medicine, e publicado na revista científica Cancer and Metastasis Reviews, do grupo Springer. A pesquisa é assinada por Madeleine Ndahayo, como primeira autora, e Daria Gaykalova, como autora sênior.
Para o estudo, os pesquisadores recorreram ao The Cancer Genome Atlas (TCGA), banco de dados genômicos de referência internacional em oncologia. Eles selecionaram informações de 523 pacientes com carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço. Depois, cruzaram dados de ancestralidade genética desses pacientes com o perfil molecular de cada tumor, buscando padrões de mutação, alterações no número de cópias de genes e níveis de expressão gênica que pudessem estar associados a diferentes grupos ancestrais.
Ancestralidade como preditor biológico do câncer de cabeça e pescoço
Um dos principais achados da revisão é que a ancestralidade genética, e não a raça autodeclarada pelo paciente, foi o fator mais relevante associado às diferenças moleculares encontradas entre os tumores. Isso significa que características biologicamente codificadas no DNA, e não a categoria racial com a qual a pessoa se identifica, parecem influenciar diretamente o comportamento do tumor. Nesse contexto estão a velocidade com que as células se dividem, a resposta à quimioterapia e o potencial de disseminação para outros órgãos.
Diferenças moleculares com potencial terapêutico
A revisão identificou variações relevantes em padrões de mutação, ganhos e perdas de cópias de DNA e atividade gênica associadas à ancestralidade. Algumas dessas alterações podem ter caráter protetor, enquanto outras parecem estar ligadas a formas mais agressivas da doença. Um dos exemplos citados envolve o gene CCNE1 que em determinados grupos de ancestralidade aparece amplificado com maior frequência. Isso impulsiona a proliferação celular por meio da via CDK2 e costuma acompanhar tumores mais agressivos e de resposta mais difícil ao tratamento. Esse é um cenário em que o uso de inibidores de CDK2 poderia representar uma estratégia terapêutica direcionada. O estudo também aponta níveis mais altos de expressão do gene POLB em associação com certas ancestralidades, reforçando o interesse desse gene como possível biomarcador de diagnóstico e prognóstico.
Fatores sociais e disparidades de sobrevida
Os números de sobrevida citados no estudo ilustram a dimensão do problema. Pacientes afro-americanos sobrevivem, em média, 2,5 anos após o diagnóstico de carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço, enquanto pacientes de ascendência europeia sobrevivem, em média, 4,8 anos, ou seja, quase o dobro. Isso não acontece por acaso e os autores afirmam que essa disparidade não pode ser atribuída apenas à biologia tumoral porque fatores sociais, como diferenças no acesso a diagnóstico e tratamento, hábitos de tabagismo e consumo de álcool, continuam sendo determinantes centrais. A proposta da revisão é que esses dois níveis de análise, o biológico e o social, sejam considerados de maneira conjunta, e não como explicações concorrentes.
O Prof. Dr. Luiz Paulo Kowalski, especialista em cirurgia oncológica de cabeça e pescoço, comenta a relevância desses achados para a realidade brasileira: "Essa revisão traz um alerta importante, especialmente para um país como o Brasil, de população extremamente miscigenada. A raça autodeclarada, tal como registrada em prontuário, muitas vezes não reflete a ancestralidade genética real do paciente, que pode ser mais informativa sobre o comportamento biológico do tumor. Isso não substitui a importância dos fatores sociais e do acesso à saúde, que seguem sendo centrais nas disparidades de sobrevida que observamos na prática clínica, mas reforça que a medicina de precisão em oncologia de cabeça e pescoço precisa, no futuro, incorporar também essa dimensão biológica."
O estudo é um lembrete de que o caminho para tratamentos mais eficazes e equitativos no câncer de cabeça e pescoço passa por reconhecer a complexidade da doença, que combina biologia tumoral, ancestralidade genética e determinantes sociais de saúde. Para os pacientes, isso reforça a importância do acompanhamento com uma equipe multidisciplinar especializada, capaz de considerar todos esses fatores na definição da estratégia terapêutica mais adequada a cada caso.
Referência bibliográfica
Ndahayo, M., Saxena, A., Thomas, H. et al. The impact of genomic ancestry on tumor genomics in head and neck squamous cell carcinoma. Cancer and Metastasis Reviews 45, 6 (2026). doi.org/10.1007/s10555-026-10312-7
Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s10555-026-10312-7





