Câncer de laringe em estágio inicial: laser ou cirurgia aberta?
- 18 de jun.
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Pesquisa publicada em revista científica internacional compara duas técnicas cirúrgicas para tratamento do câncer de laringe e aponta qual é mais indicada para cada caso

Quando o câncer de laringe é diagnosticado em estágio inicial, o prognóstico costuma ser favorável e o tratamento, eficaz. Mas uma dúvida frequente entre os especialistas diz respeito à melhor abordagem cirúrgica: operar pela boca, com auxílio de um laser de alta precisão, ou realizar uma cirurgia aberta com remoção parcial da laringe?
Uma revisão sistemática publicada na revista científica European Archives of Oto-Rhino-Laryngology, sob o título Transoral laser microsurgery versus vertical partial laryngectomy for early glottic carcinoma: a systematic review, traz dados concretos para ajudar a responder essa pergunta.
O estudo analisou comparativamente duas técnicas cirúrgicas usadas no tratamento do câncer glótico, ou seja, o câncer que acomete as pregas vocais, estruturas centrais da laringe. Os pesquisadores consideraram a doença em estágios iniciais. Esses estágios são classificados como T1, quando o tumor está restrito às pregas vocais com mobilidade preservada, e T2, quando há extensão para outras estruturas da laringe ou comprometimento da mobilidade vocal. O estadiamento T1 representa um tumor menos avançado; o T2 indica maior extensão local, mas ainda sem disseminação em profundidade ou para fora da laringe.
As duas abordagens avaliadas foram a microcirurgia a laser transoral – realizada pela boca, sem incisão no pescoço, com uso de laser de alta precisão para remover o tumor – e a laringectomia parcial vertical, uma cirurgia aberta em que parte da laringe comprometida pelo tumor é removida com preservação do restante do órgão. Ambas têm como objetivo eliminar o câncer mantendo ao máximo a função da laringe.
Para chegar às suas conclusões, os pesquisadores realizaram uma busca em bases de dados científicas internacionais de estudos publicados entre 2000 e 2024. De mais de seis mil artigos identificados inicialmente, oito atenderam a todos os critérios de inclusão e foram analisados em profundidade. As populações estudadas variam de 63 a 573 pacientes, com acompanhamento médio de dois a seis anos.
Controle do câncer de laringe
Para tumores em estágio T1, os resultados oncológicos das duas técnicas foram equivalentes. Estudos incluídos na revisão mostraram taxas de controle local ( eliminação do tumor na região operada) semelhantes entre a microcirurgia a laser transoral e a laringectomia parcial vertical. Não houve diferença estatisticamente significativa, o que significa que, para esse grupo de pacientes, as duas abordagens são igualmente eficazes no combate à doença.
Já nos tumores T2, o cenário muda. A laringectomia parcial vertical demonstrou vantagem oncológica mais clara, com taxas de controle local superiores em comparação à microcirurgia a laser transoral. Essa superioridade torna-se ainda mais evidente quando o tumor acomete a chamada comissura anterior, a região onde as duas pregas vocais se encontram na parte frontal da laringe, uma área de acesso mais difícil pela via transoral.
Recorrência e tratamento de resgate
A microcirurgia laser transoral apresentou taxas de recorrência um pouco mais altas do que a laringectomia parcial vertical — especialmente em casos com envolvimento da comissura anterior, onde a recidiva chegou a ser observada em mais da metade dos pacientes tratados com essa técnica.
Porém, um aspecto importante identificado pelos pesquisadores é que, quando o tumor retorna após a microcirurgia a laser transoral, o tratamento de resgate costuma ser mais simples e os resultados funcionais, melhores. A possibilidade de realizar novas intervenções conservadoras pela via transoral representa uma vantagem importante dessa abordagem.
Voz, deglutição e recuperação pós-operatória
Do ponto de vista funcional, a microcirurgia a laser transoral levou vantagem na maioria dos aspectos analisados. Pacientes submetidos à laringectomia parcial vertical tiveram internações hospitalares mais longas, maior necessidade de traqueostomia (abertura temporária na traqueia para garantir a respiração) e dependência mais prolongada de sonda para alimentação. Já os pacientes tratados com microcirurgia a laser transoral apresentaram recuperação mais rápida, menores taxas de complicações e melhor preservação da função de deglutição, com menos episódios de aspiração de alimentos e disfagia no pós-operatório.
Quanto à voz, os estudos indicam que, apesar da laringectomia parcial vertical poder causar impacto mais imediato na qualidade vocal, os resultados a longo prazo tendem a ser comparáveis entre as duas técnicas. Um ponto de atenção da microcirurgia a laser transoral é a maior incidência de granulomas, que são pequenas lesões que podem se formar na laringe após o procedimento e eventualmente exigir tratamento adicional.
A realidade brasileira e latino-americana
Os pesquisadores também destacaram diferenças importantes no perfil de uso dessas técnicas entre regiões do mundo. Na Europa, a laringectomia parcial vertical foi amplamente substituída pela microcirurgia a laser transoral, reflexo da maior disponibilidade de equipamentos e da experiência acumulada em abordagens minimamente invasivas. Na América do Sul, incluindo o Brasil, a laringectomia parcial vertical ainda é realizada com frequência considerável.
Essa diferença reflete, em parte, o contexto epidemiológico: em países europeus, o câncer de laringe costuma ser diagnosticado em estágios mais precoces, favorecendo o uso de técnicas menos invasivas. Já na América do Sul, diagnósticos em estágios mais avançados são mais frequentes, o que pode justificar a maior indicação de cirurgias abertas. Além disso, a incidência do câncer de laringe segue em queda na Europa em função de políticas públicas de saúde mais eficazes no controle do tabaco e do álcool — enquanto permanece relevante em diversas regiões da América do Sul, onde esses fatores de risco ainda são prevalentes.
O Prof. Dr. Luiz Paulo Kowalski, um dos pesquisadores do estudo e especialista em cirurgia oncológica de cabeça e pescoço, ressalta a relevância clínica dos achados. "Esta revisão confirma que não existe uma resposta única para todos os pacientes. Para tumores T1 bem delimitados, a microcirurgia a laser transoral oferece excelente controle oncológico com menor impacto na recuperação. Já em tumores T2, especialmente com envolvimento da comissura anterior, a laringectomia parcial vertical segue sendo uma opção cirúrgica importante, com vantagem no controle local da doença. A escolha deve ser sempre individualizada, levando em conta as características do tumor, as condições do paciente e a experiência da equipe cirúrgica, além disso, a opção para alguns pacientes pode ser a radioterapia ao invés da cirurgia”, afirma.
O estudo reforça que tanto a microcirurgia a laser transoral quanto a laringectomia parcial vertical são estratégias seguras e eficazes para o tratamento do câncer glótico em estágio inicial. A decisão pela melhor abordagem deve ser tomada de maneira conjunta entre o paciente e o cirurgião. É preciso levar em conta o estadiamento do tumor, a localização da lesão, as prioridades do paciente em relação à função vocal e à qualidade de vida, e a infraestrutura disponível no centro de tratamento.
Para pacientes com diagnóstico de câncer de laringe, a avaliação por um especialista em cirurgia oncológica de cabeça e pescoço é essencial para definir a melhor conduta em cada caso.
Referência bibliográfica
Bassani S, Dedivitis RA, Molteni G, Zampieri E, Dalmazzini C, de Castro MAF, Kowalski LP. A systematic review on oncological outcomes, functional results, and laryngeal preservation in vertical partial laryngectomies vs. transoral laser microsurgery for early stage glottic cancer. Eur Arch Otorhinolaryngol. 2026 Feb;283(2):683-689. doi: 10.1007/s00405-025-09657-6. Epub 2025 Sep 3. PMID: 40900326; PMCID: PMC12987851.
Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12987851/





