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Preciso fazer radioterapia para tratar um câncer de cabeça e pescoço. E agora?

  • há 6 horas
  • 6 min de leitura

No tratamento do câncer de cabeça e pescoço, a atuação conjunta de uma equipe multidisciplinar é fundamental. A união da cirurgia, radioterapia e oncologia clínica resultam nas opções de tratamento disponíveis, que em muitos casos são combinadas durante toda a jornada do paciente.


Dr. Luiz Paulo Kowalski

E muitas são as dúvidas dos pacientes sobre a radioterapia. O receio da radiação, do equipamento, das reações e dos efeitos colaterais é legítimo e compreensível.


Mas muitos desses medos estão relacionados a informações que eram verdadeiras no passado. Felizmente, a radioterapia evoluiu. Atualmente, ela é uma das maiores parceiras para alcançarmos resultados positivos e, ao mesmo tempo, preservarmos funções essenciais na região da cabeça e do pescoço, como a voz e a capacidade de engolir.


Reunimos algumas das principais dúvidas que são trazidas pelos pacientes durante as consultas e o nosso diretor e cirurgião oncológico de cabeça e pescoço Prof. Dr. Luiz Paulo Kowalski convidou, para um bate-papo, seu colega e um dos profissionais que tem maior admiração nessa área, o médico radio-oncologista Dr. Antônio Cássio Pellizzon, Head de Radioterapia do A.C.Camargo Cancer Center. Veja a seguir.

 


Dr. Luiz Paulo Kowalski – Cássio, no meu consultório, o paciente que recebe a indicação de radioterapia costuma ficar apreensivo. Afinal, o como a radioterapia funciona e quando ela entra no plano de tratamento que desenhamos juntos?


Dr. Antônio Cássio Pellizzon – É natural ter medo, Kowalski, mas a radioterapia é uma grande aliada. Ela usa feixes de radiação para destruir as células do câncer ou impedir que se multipliquem. É um tratamento direcionado à região do tumor para poupar ao máximo o tecido saudável ao redor. Em nossa rotina de cabeça e pescoço, a radioterapia pode entrar depois da sua cirurgia, para eliminar possíveis células tumorais que tenham permanecido na região, ou como tratamento principal.


Dr. Luiz Paulo Kowalski – Outra dúvida muito comum é sobre o uso de tratamentos combinados. Por que para alguns pacientes indicamos a radioterapia isolada e para outros precisamos associar com a quimioterapia?


Dr. Antônio Cássio Pellizzon – Na radioterapia isolada, o paciente recebe apenas a radiação. Na quimiorradioterapia, nós combinamos a radiação com medicamentos que potencializam o ataque ao tumor. Geralmente reservamos essa combinação para casos mais agressivos ou com maior risco de retorno da doença. Mas como ela exige mais do organismo e pode aumentar os efeitos colaterais, avaliamos detalhadamente a idade, a função dos rins e a audição antes de bater o martelo. Os comitês multidisciplinares (com cirurgião, radio-oncologista, oncologista clínico, patologista, entre outros) servem justamente para desenhar esse plano, sempre considerando também os desejos do paciente de preservar a voz, a deglutição e a sua qualidade de vida.


Dr. Luiz Paulo Kowalski – Falando em precisão, as pessoas têm a imagem de que a radioterapia deixa muitas sequelas. O que mudou na tecnologia atual?


Dr. Antônio Cássio Pellizzon – Mudou tudo. Atualmente, os aparelhos e os programas de planejamento permitem direcionar a radiação com muito mais precisão. Técnicas modernas como a IMRT (Radioterapia de Intensidade Modificada) e a radioterapia guiada por imagem nos deixam aplicar doses mais potentes contra a doença enquanto protegemos estruturas vizinhas sensíveis, como as glândulas salivares (reduzindo o risco de boca seca crônica), a medula espinhal e a medula óssea. O tratamento se tornou infinitamente mais seguro.


Dr. Luiz Paulo Kowalski – Para garantir essa precisão milimétrica, é utilizada a máscara termoplástica. Por que ela é tão necessária?


Dr. Antônio Cássio Pellizzon – A máscara termoplástica é fundamental. Feita de um material que se adapta perfeitamente ao rosto e ao pescoço do paciente, ela garante que a cabeça fique exatamente na mesma posição em todas as sessões, já que pequenas mudanças milimétricas afetariam a precisão. Se o paciente emagrecer muito ou o tumor diminuir rápido, nós a refazemos. Ela não machuca e permite respirar normalmente, trazendo apenas uma sensação inicial de aperto.


Dr. Luiz Paulo Kowalski – Uma das principais dúvidas que recebo é se a radioterapia dói. Como ocorre as sessões?


Dr. Antônio Cássio Pellizzon – Em geral, não dói. O paciente não sente o feixe de radiação entrando no corpo: não há calor, choque ou queimação durante a aplicação. Primeiro, fazemos uma consulta de planejamento com tomografia para confeccionar a máscara. Depois, as sessões acontecem normalmente de segunda a sexta-feira. Muitos tratamentos duram entre seis e sete semanas (cerca de 30 a 35 sessões), e cada aplicação leva poucos minutos. Os desconfortos na pele ou na garganta não acontecem na hora; eles vão surgindo gradualmente ao longo das semanas, e nossa equipe acompanha de perto para oferecer medicamentos e orientações de controle.


Dr. Luiz Paulo Kowalski – E o convívio em casa pode acontecer normalmente? O paciente sai da sala "radioativo" e não pode ter contato com as pessoas?


Dr. Antônio Cássio Pellizzon – De jeito nenhum. Na radioterapia externa, a radiação é emitida pelo aparelho e não permanece no corpo depois que a sessão termina. Por isso, é absolutamente seguro conviver normalmente com outras pessoas após a sessão.


Dr. Luiz Paulo Kowalski – O tratamento costuma causar muito cansaço. O paciente pode continuar trabalhando ou dirigindo?


Dr. Antônio Cássio Pellizzon – O cansaço é comum e tende a aumentar ao longo das semanas, podendo estar ligado ao tratamento, à alimentação insuficiente ou ao estresse emocional. Muitos pacientes conseguem continuar trabalhando, mas talvez precisem reduzir o ritmo ou ajustar os horários. Dirigir é permitido, desde que a pessoa esteja se sentindo bem, sem tontura, fraqueza ou sonolência provocada por medicações.


Dr. Luiz Paulo Kowalski – E quanto à alimentação e hábitos de vida? Existem restrições? Pode fumar ou beber durante o ciclo?


Dr. Antônio Cássio Pellizzon – Não existe uma dieta única, mas é essencial manter uma alimentação rica em calorias e proteínas. Como a boca e a garganta ficam sensíveis, alimentos muito apimentados, ácidos, secos, duros ou muito quentes devem ser evitados para não causar dor ao engolir. O álcool pode irritar ainda mais os tecidos e interagir com remédios. Já o cigarro prejudica diretamente a cicatrização, aumenta a irritação e pode até reduzir os benefícios da radioterapia. O ideal é não fumar e evitar bebidas alcoólicas.


Dr. Luiz Paulo Kowalski – No pós-tratamento, os pacientes me perguntam muito sobre cuidados locais e procedimentos na face. É permitido usar qualquer produto na pele? E procedimentos estéticos como botox, preenchimento ou ir ao dentista fazer extrações, estão liberados?


Dr. Antônio Cássio Pellizzon – Isso é algo que exige muito cuidado. Na pele tratada, apenas lavagem suave com água morna, sabonete neutro e os hidratantes recomendados pela equipe. Nada de perfumes, álcool ou pomadas caseiras. Quanto a procedimentos estéticos, como botox, preenchimento, laser, ou extrações dentárias, eles nunca devem ser feitos automaticamente após o término do tratamento. A região irradiada tem alterações na pele, na circulação e na capacidade de cicatrização. As extrações dentárias merecem atenção especialíssima: se feitas sem o preparo adequado, aumentam o risco de uma complicação grave chamada osteorradionecrose (lesão no osso). Antes de qualquer procedimento na região, o paciente deve sempre consultar seu radio-oncologista e informar a clínica estética sobre o tratamento realizado.


Dr. Luiz Paulo Kowalski – É comum o paciente perder o paladar ou precisar de sonda para se alimentar? O que a equipe multiprofissional faz para evitar isso?


Dr. Antônio Cássio Pellizzon – Perder o paladar (ou sentir um gosto metálico) e ter dificuldade para engolir pode acontecer se a boca ou a língua receberem radiação, mas costuma melhorar gradualmente após o tratamento. A sonda não é uma regra. Muitos continuam comendo pela boca adaptando a consistência dos alimentos. A sonda entra apenas se a ingestão oral não for suficiente, se houver perda de peso importante ou se engolir se tornar inseguro, funcionando como um apoio temporário na fase mais difícil. É por isso que o dentista, o nutricionista e o fonoaudiólogo trabalham juntos desde antes do início das sessões para preparar a boca, ajustar a consistência dos alimentos e exercitar a musculatura da deglutição, garantindo a força e a tolerância do paciente.


Dr. Luiz Paulo Kowalski – Para terminarmos, Cássio: que mensagem você deixa para quem descobriu a necessidade do tratamento e está paralisado pelo medo?


Dr. Antônio Cássio Pellizzon – O medo é uma reação normal, mas radioterapia não significa dor e nem isolamento. O tratamento é planejado individualmente e, na instituição em que trabalhamos, a equipe multidisciplinar está ao lado do paciente durante todo o processo para prevenir e tratar os efeitos colaterais. É importante o paciente fazer perguntas, avisar rapidamente sobre qualquer sintoma e aceitar o apoio da família e dos profissionais. Ele não precisa enfrentar essa fase sozinho, e a maioria das dificuldades é temporária e totalmente controlável

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