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Inteligência Artificial: ferramenta promissora desde que aliada ao olhar do médico

  • há 10 minutos
  • 3 min de leitura

A Inteligência Artificial (IA) avança rapidamente em todas as áreas, provocando transformações. Na medicina, essa realidade não é diferente, e sistemas avançados de IA começam a fazer parte do dia a dia clínico. Diante disso, surge uma dúvida central: podemos confiar cegamente na IA para guiar decisões complexas em oncologia?


Luiz Paulo Kowalski

Colaborei em um estudo recente com foco no carcinoma de orofaringe, “Oropharyngeal cancer management in the era of artificial intelligence for optimal decision-making”, publicado na Brazilian Journal of Otorhinolaryngology,  abordando questões relativas ao tema.


Esse tipo de tumor afeta regiões como amígdalas, base da língua, palato mole e parede posterior da faringe. Avaliamos a precisão de grandes modelos de linguagem (LLMs), como ChatGPT, Claude, Gemini e Perplexity. O objetivo foi medir o alinhamento deles com os principais protocolos globais de tratamento. Para garantir uma metodologia rigorosa, nós estruturamos perguntas complexas, simulando as dúvidas que enfrentamos rotineiramente em nossos consultórios.



Acertos e falhas da inteligência artificial


Usamos como referência as Diretrizes de Prática Clínica da National Comprehensive Cancer Network (NCCN Guidelines). O painel de especialistas estruturou perguntas complexas para testar as plataformas. Os resultados trouxeram dados relevantes:


  • 75% de concordância na maioria dos cenários, ou seja, as respostas da IA alinharam-se aos protocolos recomendados.

  • Conteúdo incompleto, em alguns casos nos quais as diretrizes da NCCN mostraram-se mais abrangentes.

  • Contradições diretas em algumas respostas das plataformas que divergiram dos padrões-ouro estabelecidos.


Ao analisar os casos mais complexos, observamos que as falhas não aconteceram de modo igual em todos os sistemas. Em cenários avançados, algumas ferramentas deixaram passar detalhes anatômicos muito importantes. Por exemplo, em tumores localizado exatamente no centro da garganta (linha média), algumas IAs não indicaram a necessidade de retirar os gânglios linfáticos dos dois lados do pescoço. Esse esvaziamento cervical bilateral é o procedimento padrão, indispensável para evitar a evolução da doença.


Outro ponto crítico foi a omissão da recomendação de quimioterapia neoadjuvante. Essa abordagem prévia é fundamental para reduzir o volume de massas tumorais antes de submeter o paciente à cirurgia principal, tornando o procedimento mais seguro e com maior possibilidade de preservar estruturas. Essas divergências graves reforçam que a tecnologia atual ainda apresenta limitações na capacidade de personalizar condutas médicas de alta complexidade.


Além disso, notamos que os algoritmos tendem a apresentar dificuldades quando as variáveis do paciente se acumulam, como a presença de comorbidades importantes ou histórico de tratamentos prévios. A IA opera cruzando dados estatísticos massivos, mas não apresenta a sensibilidade necessária para ponderar os riscos individuais de cada paciente. Essa falta de flexibilidade pode induzir a erros em terapias que exigem um balanço entre agressividade terapêutica e preservação funcional.


É verdade que a IA traz agilidade  para sintetizar dados científicos em tempo real, o que considero valioso, pois o conhecimento médico evolui de modo extremamente acelerado. No entanto, a oncologia de cabeça e pescoço exige uma personalização extrema. Os 25% de respostas incorretas ou incompletas documentados no estudo  mostram que o uso autônomo dessas ferramentas envolve sérios riscos em relação aos cuidados do paciente. Dessa forma, a tecnologia deve funcionar como um suporte complementar ao julgamento clínico, jamais como um substituto para a experiência humana.


A tomada de decisão na prática clínica


Os tumores de orofaringe, especialmente os associados ao HPV, apresentam comportamento biológico único. O plano do tratamento precisa ser diferenciado, considerando fatores que vão além das diretrizes frias de um manual. Pequenos desvios na estratégia impactam diretamente o controle da doença e a qualidade de vida do paciente a longo prazo.


A IA tem um potencial promissor para otimizar o tempo na prática clínica no futuro. Mas não podemos abrir mão, em qualquer situação, de nossa avaliação criteriosa e rigorosa. A discussão multidisciplinar entre cirurgiões, oncologistas clínicos e radioterapeutas, somada à sensibilidade do especialista, sempre serão as bases inegociáveis de segurança no diagnóstico e tratamento do paciente.


Referência Bibliográfica:

Castro MAF, Dedivitis RA, Matos LL, Trindade CP, Duarte PBF, Kowalski LP. Gestão do câncer orofaríngeo na era da inteligência artificial para a tomada de decisões otimizadas. BJORL, 2026.


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